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Blink! – Num Piscar de Olhos

Já lhe aconteceu de ficar surpreso com o resultado de algo em que você estava envolvido ou era o responsável? Tão surpreso que, quando de repente “caiu a ficha” esclarecedora sobre sua participação, você nem mesmo acreditou que pudesse ter feito aquilo? O que poderia ter ocorrido para provocar sua ação?

No livro “Blink“, Malcolm Gladwel relata algumas situações assim. Na realidade seu livro relata casos de decisões tomadas instintivamente, sem pensar da forma tradicional como costumamos assumir que as decisões são tomadas: analisando alternativas, quantificando as vantagens e desvantagens de cada possibilidade. Nesse livro, ele trata de decisões tomadas instantaneamente em situações reais, durante um piscar de olhos, e a grande maioria, de forma surpreendente para mim, foram decisões acertadas.

Na introdução do livro ele relata a aquisição, pelo museu J. Paul Getty, de um kouros – estilo específico de escultura grega – após os procedimentos necessários para comprovar a autenticidade da mesma. Alguns especialistas em arte familiarizados com escultura grega, ao verem a estátua pela primeira vez, tiveram uma reação instantânea de “rejeição” à mesma. Embora nem sempre soubessem identificar o porque, eles foram unânimes, cada qual a seu modo, em afirmar que a estátua parecia falsa, provocando uma enorme controvérsia. A exposição da estátua foi suspensa e uma série de investigações adicionais foram efetuadas. O museu registra que a autenticidade ainda não foi estabelecida e até vende o livro em que a controvérsia foi registrada (Statue of a Kouros) . Diversas imagens de kouros podem ser vistas pelo Google.

Em outra ocorrência narrada no capítulo 6, uma equipe de policiais treinados e experientes em eventos semelhantes, tomaram decisões errôneas que custaram a vida de Amadou Diallo, um imigrante da Guiné. Em instantes diferentes, todos tiveram certeza que Amadou estava sacando uma arma de fogo e um total de 41 tiros foram disparados contra ele pelos quatro policiais em alguns segundos. Quando se fez silêncio e constataram que Amadou estava sacando o passaporte, o policial que havia iniciado o tiroteio caiu em pranto.

Daniel Goleman, em seu livro Inteligência Emocional mostra que as habilidades não cognitivas, fortemente relacionadas com as emoções e por ele denominadas de “inteligência emocional”, são tão importantes quanto a inteligência racional. Logo no capítulo 2 ele descreve o que chamou de “sequestro emocional” também a partir de um evento real, em que um ladrão, após roubar um apartamento luxuoso, assassina freneticamente duas moças que lá residiam ao ser tomado pelo pânico devido a um comentário de uma delas. Conforme Goleman, um sequestro emocional ocorre quando

“… um centro no cérebro límbico proclama uma emergência, recrutando o resto do cérebro para sua urgência. O sequestro ocorre num instante, disparando essa reação crucial momentos antes de o neocórtex, o cérebro pensante, ter tido uma oportunidade de ver tudo que está acontecendo, quanto mais de decidir se é uma boa ideia.”

“Esses sequestros não são de modo algum incidentes isolados e horrendos, … ocorrem conosco com muita frequência. … Nem todos sequestros límbicos são aflitivos.”

Creio que em nosso ambiente profissional também estamos sujeitos a piscadas e sequestros semelhantes, felizmente menos catastróficos.

Durante a leitura lembrei-me de situações assim que aconteceram quando, repentinamente entendia o porque de um erro (quase sempre um erro que eu, mais de uma vez, já pensara ter solucionado). Junto com a satisfação de poder corrigi-lo definitivamente, ao mesmo tempo me questionava: como não percebi antes? como pude escrever esse código? Procurava perceber, sentir – se possível, entender – o que teria me levado a piscar, o que teria provocado o sequestro emocional que havia me tirado o foco. Enfim, o que teria me lavado a cometer tal erro, que àquela altura parecia tão absurdo por ser tão óbvio.

Nos grupos em que trabalhei, essas ocorrências eram uma oportunidade de se debater o assunto com toda a equipe utilizando perguntas do tipo:

  • Como pude entender (ou como pudemos entender) dessa forma?
  • Como, ou porque, fizemos essa opção?
  • O que podemos melhorar para que isso não volte a ocorrer?

Pela minha experiência, essas conversas são muito produtivas, mesmo que nem sempre sejam conclusivas, pois aumentam o entrosamento, melhoram a comunicação e os resultados da equipe, e podem possibilitar ajustes significativos no processo de trabalho. Esses ajustes costumam ser no conhecimento tácito do grupo, e podem até ocorrer de forma inconsciente – sem a necessidade de se alterar formalmente as regras (metodologia) utilizadas.

Quando surgiu o XP, essas recordações devem ter sido determinantes para eu ter concordado de imediato com a prática de “pair-programing”. Mesmo sem ter tido a oportunidade de utiliza-la, continuo seu adepto, pois a ideia é que o segundo programador irá perceber as “piscadas” de quem está escrevendo o código e o erro será evitado no nascedouro. Para mais detalhes sobre essa prática, veja pair-programing na Wikipedia que inclui informações sobre custo/benefício e alguns estudos científicos sobre sua utilização

E você, já teve experiências semelhantes? Não teve? Gostaria de saber mais? Faça seus comentários.

“As anotações iniciais para esse post foram feitas em 2006 ao ler a edição em inglês. Posteriormente, o título foi lançado em português pela editora Rocco: Blink – A Decisão num Piscar de Olhos.”

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