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O Jardineiro de Idéias

Em um desses dias normais, no horário de expediente, ele estava em um  condomínio comercial aguardando o elevador. Era um profissional da área de informática com muitos anos de participação em equipes de desenvolvimento de software, como desenvolvedor ou coordenador.

Como um dos dois elevadores estava em manutenção, a fila andava devagar e ele olhava vagamente um desses onipresentes monitores de tv dedicados a notícias e comerciais prestando alguma atenção na vinheta inferior, que naquele momento mostrava o acompanhamento de indicadores da Bolsa de Valores. Foi quando  sua atenção foi sequestrada por um título que apareceu rapidamente na tela: “O Atirador de Idéias”. O que será isso, pensou. Só no retorno da propaganda percebeu que se tratava do título de um livro. Começou a gostar do livro, já imaginando uma história com um personagem que atirava idéias com precisão, acertando sempre os seus alvos.

Mas como pode alguém atirar idéias em alvos como se fosse um atirador de facas ou de dardos? Idéias não são facas nem dardos para serem simplesmente lançadas por algum atirador e serem cravadas em algum alvo.

Quem assim argumentava era o seu outro eu, que costumava se achar o tal e sempre se intrometia assim como quem sublinha o que está falando. E continuou:

Lançar idéias faz todo o sentido durante a fase inicial de um “brain storming”, quando o objetivo é elaborar uma lista de idéias. No dia a dia dos projetos as idéias necessitam ser compreendidas para que se tornem IDÉIAS. Somente assim podem ser avaliadas,  colocadas em prática e dar resultados.

Desenvolver software tem tudo a ver com idéias. Começamos sabendo quase nada ou muito pouco, e temos que elaborar idéias para compreender o produto desejado ou necessário para o nosso cliente, seja ele interno ou externo. Por isso aquele título lhe pareceu tão sedutor!

Mas o outro, que continuava atento, sem nada lhe perguntar começou a enviar imagens de alguém atirando idéias (cada uma amarrada em uma adaga) e as pessoas se desviando para não serem atingidas.

Ele percebeu a ironia do outro, mas entrou no filme e ficou imaginando como essa metáfora poderia funcionar. O atirador só atira? A pessoa ser alvejada depende de que?

a) do atirador, sua habilidade em apresentar a idéia?
b) da idéia em si, seu conteúdo intrínseco?
c) da pessoa-alvo, sua abertura a novas idéias, sua disposição de espírito ou humor no momento?
d) qualquer uma das alternativas acima?
d) todas as alternativas acima, em conjunto?

Como identificar as boas idéias? Como descartar as que não se aplicam? Não gostou muito da imagem, alguém atirando dardos-idéias nas pessoas-alvos!

Percebendo a brecha, o outro sublinhou de maneira cúmplice, procurando não fazer alarde: seria mais adequado o título “O Jardineiro de Idéias”. Um bom jardineiro prepara o solo, planta e cuida, promovendo as condições para que cresça saudável … Ele conhece as sementes e já sabe o que vai nascer e crescer a partir de cada uma delas … e se recolheu.

É … um jardineiro sabe que cada planta tem seu ciclo de vida, que algumas rapidamente dão flores, enquanto outras necessitam de muito mais tempo; umas florescem continuamente, enquanto outras só desabrocham em épocas e em condições específicas; que a qualquer momento, quando uma planta já cumpriu sua missão, ela pode e deve ser substituída.

Imaginou que, nos projetos, cada participante poderia ser um jardineiro cuidadoso, atento a algumas características adicionais:

  • São jardins compartilhados, muitos são os jardineiros.
  • Cada jardineiro também faz parte do jardim, é uma parte do terreno onde a semente-idéia deve germinar.
  • A natureza de cada semente-idéia nem sempre é conhecida quando surge, e é mister que seja criteriosamente analisada: ela vai alavancar ou vai atravancar o projeto? Devemos plantá-la ou descartá-la?
  • Dentre as que plantamos, algumas nascem e crescem apenas para descobrirmos que não são adequadas ao jardim, isso faz parte da natureza, e é bom. Os jardineiros aprendem.
  • As plantas, as flores e os perfumes não são dos jardineiros … elas pertencem ao jardim, e somente lá poderão realizar todo seu potencial.

Sim, “Jardineiro de Idéias” é uma boa metáfora, pensou.

A fila andou novamente e ele entrou no elevador.

________________________________________________________________________________
O esboço desse texto foi elaborado ainda em 2010, no dia em que vi o anúncio. Depois de ajustá-lo e remendá-lo diversas vezes, não resistindo à curiosidade, comprei e li o livro. (O Atirador de Idéias, de Adilson Xavier, editora Best Seller Ltda) O pai do personagem principal tem uma fala forte e marcante, e no livro elas estão em negrito. Gostei do artificio e promovi sua reutilização, mas, para disfarçar, fiz um “refactoring” e utilizei sublinhado🙂

Dê uma passada pelo site do livro, é surpreendente e vale a pena.
http://www.oatiradordeideias.com.br/

Pesquisando na internet sobre jardineiros e idéias,encontrei o artigo “Caro Senhor Ministro da Educação…” de  Rubem Alves. Não resisti a reproduzir o parágrafo abaixo, que tem tudo a ver com essa metáfora para desenvolvimento de software.

“O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. …”

http://www.rubemalves.com.br/carosenhorministrodaeducacao.htm

Categorias:Uncategorized
  1. CAROLINA STHEL
    06/10/2011 às 10:37

    Arisio, adorei!! Já estou lendo o primeiro capítulo. Carol Sthel

    • 06/10/2011 às 22:03

      Carol,
      Há quanto tempo!
      Que bom que você gostou.
      Espero que goste do livro tanto quanto eu gostei.
      Um grande abraço

  2. paulo salgueiro
    07/10/2011 às 13:53

    Caro amigo, parabéns pelo artigo!

    Quando li que as pessoas torcem para não serem atingidos pelas facas fiquei pensando comigo, “torcem para não mudar o paradigma”. Mas se gostaria que acertasse com as idéias e conquistar os envolvidos, talvez seria o “cupido de idéias” .

    Vou comprar o livro e depois te passo minhas impressões.

    Abs,
    Paulo Salgueiro

    • 07/10/2011 às 16:06

      Alo Paulo
      Pois é, ideias lançadas como adagas, com violência, com a insinuação ou certeza de que são mandatórias independente de seu conteúdo, tendem a ser rechaçadas ou carregadas sem entusiasmo, como um fardo. Se a ideia vier com a flexa de Cupido talvez gere entusiasmos e sucesso, mas continua algo que foi produzido fora e implantado (flexado) no projeto. A imagem de jardineiros (a equipe) cuidando para que uma ideia evolua de forma saudável para o projeto me parece mais participativa, que promove o envolvimento de toda equipe.
      O livro não tem ligação com nosso contexto, mas gostei muito da forma como a história foi contada.
      Um grande abraço

  3. Sônia Costa
    18/11/2014 às 7:38

    Quem lança a ideia como um dardo, tem a pretensão de possuir o dardo e o alvo… Na prática, nós nos damos conta de que, para uma boa ideia ser aceita e transformada em um projeto com frutos, é preciso que ela seduza os eventuais parceiros e que estes tenham a certeza de que serão de fato incluídos como coautores… E aí reside a dificuldade de alguns em serem jardineiros de ideias!

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